O Tratamento de Resíduos Hospitalares
A gestão integrada de Resíduos Hospitalares (RH) é composta por diversas fases, abaixo detalhadas, desde a sua origem até ao respectivo tratamento e destino final.
FASES DA GESTÃO
1ª Fase
Triagem e acondicionamento
A triagem e acondicionamento dos RH são da responsabilidade dos produtores, isto é, das unidades prestadoras de cuidados de saúde.
O SUCH realiza periodicamente acções de sensibilização e formação, junto de gestores hospitalares, médicos, enfermeiros e auxiliares, sobre os aspectos relacionados com a protecção individual e procedimentos a adoptar.
O envolvimento do SUCH nesta primeira fase passa igualmente pela oferta de soluções de contentorização e acondicionamento, adaptadas às especificidades das unidades produtoras
2ª Fase
Recolha, transporte e armazenamento
O SUCH procede diariamente, junto das várias unidades produtoras no país, à recolha e transporte para tratamento de RH, que são embalados (de acordo com o Despacho n.º 242/96, de 13 de Agosto) e selados, antes de serem colocados nos respectivos contentores de transporte.
O transporte é assegurado por uma equipa técnica especializada, com formação ADR (Decreto-Lei n.º 170-A/2007, de 4 de Maio) para o transporte de mercadorias perigosas por estrada, através de viaturas apropriadas e de uso exclusivo para o efeito.
Os operadores possuem equipamento de protecção individual, que inclui farda e calçado de trabalho, luvas e máscaras especiais. As viaturas afectas ao transporte são objecto de um programa sanitário de lavagem e desinfecção diárias.
Para armazenamento dos RH, por um período que pode ir de 1 a 7 dias antes do tratamento, a Central de Incineração dispõe de um edifício especificamente concebido para este fim. Este espaço de armazenagem é dotado de bacias de retenção para os efluentes líquidos, de um sistema automático de combate a incêndios e de capacidade de refrigeração (armazém frigorífico).
3ª Fase
Controlo e pesagem
Os procedimentos de controlo/aceitação dos RH são efectuados de acordo com o disposto no artigo 5.º da Directiva 2000/76/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 4 de Dezembro. No processo de recepção não se procede à recolha de amostras representativas (n.º 4, alínea b) do artigo 5.º da Directiva 2000/76/CE) dado serem resíduos hospitalares infecciosos.
Os contentores, devidamente identificados no que respeita à sua proveniência e tipo (Despacho n.º 242/96, de 13 de Agosto), são descarregados e os resíduos registados, pesados em separado, através de leitura óptica, após o que são colocados na linha de entrada para tratamento.
O SUCH, de acordo com o que é requerido por lei, procede periodicamente ao inventário de todos os RH recebidos e dos resíduos produzidos no tratamento dos RH específicos.
4ª Fase
Tratamento e destino final
O processo tecnológico da Central de Incineração do SUCH é uma oxidação seca, realizado a temperaturas elevadas, que transforma combustível (os RH perigosos, orgânicos e combustíveis) em matéria inorgânica e incombustível, reduzindo significativamente o peso e volume1 dos resíduos mas também a sua perigosidade, visto que elimina os agentes patogénicos e destrói resíduos de medicamentos e outras substâncias químicas. Desta combustão resultam gases e produtos do respectivo tratamento, assim como cinzas e escórias.
A descrição sumária do funcionamento da Central de Incineração do SUCH é feita, numa primeira parte, em torno dos aspectos relativos aos processos de combustão, descrevendo-se designadamente o funcionamento do sistema de alimentação o abastecimento do combustível para incineração e o das câmaras de combustão para processamento dos RH. Numa segunda parte, descrevem-se os aspectos referentes aos produtos da combustão, nomeadamente o tratamento de gases e o destino final dos resíduos deste processo, bem como das cinzas e escórias resultantes da incineração.
1WHO (1999). Safe Management of Wastes from Health-Care Activities. Annette Prüss, E. Giroult, P. Rushbrook (eds.). WHO ¿ Geneva
PROCESSO E FASES DA COMBUSTÃO
Sistema de alimentação
A alimentação é feita através de um sistema hidráulico de elevação e basculamento de contentores, que é accionado por botão de pressão, pelo operador de serviço, sempre que no quadro sinóptico aparece informação de desinibição de carregamento (a intervalos de 5 a 6 vezes por hora). A sequência de operações é executada automaticamente pela seguinte ordem:
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Abertura da tampa da tremonha de carga
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Elevação e basculamento do contentor de RH pelo sistema hidráulico;
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Esvaziamento e devolução do contentor à posição inicial;
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Fecho da tampa da tremonha de carga;
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Abertura da porta (tipo guilhotina) de abastecimento da câmara de combustão;
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Avanço do propulsor de abastecimento dos RH, empurrando os resíduos para o interior da câmara de combustão e voltando para trás;
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Fecho da porta da câmara do incinerador e abertura da tampa da tremonha de carga, para um novo ciclo de alimentação.
Câmara de combustão primária
A incineração dos RH perigosos é efectuada em dois estágios. O primeiro ocorre na câmara de pirólise), a uma temperatura entre 850 e 950 ºC e em depressão (50 Kpa).
Figura 1 - representação esquemática da câmara de combustão primária
Esta câmara é horizontal, estática e possui três patamares de combustão desnivelados, com empurradores móveis temporizados, assistidos hidraulicamente, que garantem o deslocamento dos resíduos sólidos durante a sequência do processo até ao extractor automático de escórias.
A temperatura de funcionamento é inicialmente garantida por um queimador-piloto, a gás natural, que se desliga automaticamente quando o calor libertado na pirólise torna a operação auto-sustentada.
O ar necessário à combustão é injectado na "cama" dos resíduos, com velocidade controlada, de forma a conseguir-se uma boa penetração até ao centro da massa de resíduos em combustão, sem provocar levantamentos relevantes de partículas
Câmara de combustão secundária
O segundo estágio de incineração compreende a combustão da fase gasosa e das partículas resultantes da pirólise efectuada na primeira câmara de combustão
Figura 2 - representação esquemática da câmara de combustão secundária
Realiza-se no termo reactor à temperatura mínima de 1100 ºC, com um tempo de permanência dos gases de, pelo menos, 2 segundos, com excesso de ar introduzido pelo ventilador secundário, devendo ser sempre garantido um valor superior a 6 % de O2 e um mínimo de turbulência.
A câmara de combustão secundária, também horizontal, desenvolve-se sobre a câmara primária, estando ambas ligadas pela conduta de interligação. Esta está equipada com dois queimadores (a gás natural) de regulação modulante, sistemas de segurança e controlo automático de estanquicidade. A temperatura de 1100/1200 ºC no termo reactor é garantida, por controlo proporcional, através de um regulador que interage com o doseamento de combustível dos queimadores.
A câmara de combustão secundária está ainda interligada com um permutador de calor, para arrefecimento dos gases de combustão e aproveitamento energético, e está equipada com by-pass automático de ligação à chaminé de emergência, para, em caso de emergência, promover a descarga rápida dos gases, protegendo, desta forma, os sistemas a jusante (permutador de calor e sistema de tratamento de gases).
Produtos da combustão
Sistema de tratamento de gases
O tratamento dos gases resultantes dos processos de combustão é feito, por via seca, através de um processo, patenteado pela SOLVAY e denominado por NEUTREC, que consiste basicamente na injecção de bicarbonato de sódio em pó e carvão activado directamente no fluxo de gás.
Figura 3 - Representação esquemática do sistema de tratamento de gases
O componente principal do sistema é um reactor de contacto, onde se dão as reacções do reagente (bicarbonato de sódio) com os gases ácidos. Este reactor tem disposição e concepção especiais, de forma a maximizar o tempo de residência dos gases e a qualidade da sua mistura com o reagente.
Os passos do processo de tratamento dos gases são, em síntese, os seguintes:
a) Arrefecimento dos gases
Os gases, que saem do permutador de calor a uma temperatura na ordem dos 250 ºC, são arrefecidos num sistema de arrefecimento por ar, de forma a atingirem temperaturas máximas de cerca de 180 ºC, que são as necessárias para a ocorrência das reacções de neutralização dos gases ácidos no reactor de contacto.
b) Fornecimento do reagente
O reagente no processo de absorção seca dos gases ácidos é o bicarbonato de sódio (NaHCO3), que se encontra armazenado num tanque, com os níveis controlados.
Previamente à sua entrada no reactor, o reagente é finamente moído, até se obter uma granulometria considerada aceitável, sendo então injectado através de um fuso transportador que alimenta o reactor, para que as reacções possam ocorrer.
c) Neutralização dos gases ácidos
Uma vez no reactor, o bicarbonato de sódio é misturado com os gases, sendo a qualidade da mistura garantida pelas características de concepção do reactor.
As reacções químicas que ocorrem (de eficiência dependente do conteúdo da mistura e da temperatura dos gases combustíveis) podem ser representadas pelas seguintes equações:
2HCl + 2NaHCO3 ® 2NaCl + 2CO2 + 2H2O
2SO2 + 2NaHCO3 + ½ O2 ® Na2SO4 + 2CO2 + H2O.
Através destas reacções, os ácidos (no estado gasoso) dão origem aos denominados Produtos Sódicos Residuais (PSR), sais que são sólidos e que se podem separar por filtração, e também à libertação de CO2 e vapor de água.
O bicarbonato de sódio neutraliza os ácidos (ácido clorídrico, dióxido de enxofre, ácido fluorídrico, ¿) com grande eficácia.
d) Depuração de metais pesados e de dioxinas e furanos
Devido à injecção combinada de carvão activado, os gases são igualmente depurados de metais pesados e de dioxinas e furanos, no respeito estrito pelas legislações mais rigorosas.
Destino final dos resíduos provenientes do processo de incineração
Resíduos resultantes do tratamento de gases
Os gases provenientes do processo de neutralização, que contêm poeiras e resíduos de produtos sódicos (cloreto, sulfato e carbonato de sódio), são posteriormente conduzidos a um filtro cerâmico, onde é feita a remoção da matéria particulada presente no fluxo gasoso. O resíduo composto por esta matéria particulada (designado por cinzas volantes e sais residuais) é um resíduo perigoso que, como tal, tem que ser adequadamente acondicionado, armazenado, transportado e depositado em aterro de resíduos industriais perigosos.
No sistema de tratamento de gases da Central de Incineração do SUCH, o acondicionamento das cinzas volantes e sais residuais após a sua produção é efectuado, de forma automática e segura, por meio dum sistema sem fim, que os transporta, em circuito fechado, para o interior de um big-bag com características adequadas para garantir total segurança no respectivo manuseamento até ao destino final destes resíduos. Como o próprio nome indica, os big-bags são grandes sacos (capacidade de cerca de 1100 l), perfeitamente acoplados ao sistema (para que não haja fugas nem interacções com o meio exterior), de material resistente e impermeável, tanto no interior como no exterior, com elevada estanquicidade, de forma a permitir o manuseamento e transporte com baixo risco de ruptura.
Durante o enchimento, o controlo é efectuado por uma sonda para medição de nível, localizada no sistema sem-fim, na parte superior do big-bag, o que permite a operação automática do processo de recolha e a substituição do big-bag logo que necessário. Depois de cheios, os big-ags são armazenados temporariamente em área coberta junto à Central de Incineração, até transporte para empresa especializada, onde são estabilizados e posteriormente encaminhados para aterro sanitário de resíduos industriais perigosos, em Espanha.
Resíduos resultantes da câmara de combustão
As escórias são os resíduos de incineração provenientes da câmara de combustão primária. Depois de separadas automaticamente pelo extractor de escórias, são arrefecidas em água, retiradas do cinzeiro por uma cadeia transportadora motorizada e acondicionadas em contentores. Não sendo um resíduo perigoso, as escórias são depositadas em aterro de resíduos industriais normais.